terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sem título


Vamos para um post bem íntimo de desabafo?

Meu pai chegou sábado aqui em São Paulo. Estava me ligando, mas não conseguiu falar porque eu estava em Juiz de Fora. Cheguei no domingo e liguei meu celular, que vive sem bateria, e vi que ele havia me ligado várias vezes. Meu pai já tinha vindo a São Paulo no mês passado, em um encontro que me deixou arrasado emocionalmente, mas feliz porque percebi que ele me admira. Depois de 24 anos procurando a aprovação dele, ao ver seus olhos vermelhos e (muito) lacrimejantes de orgulho percebi que ele me admira. Só não deu ainda para conversar sobre orientação sexual, ainda é muito cedo.

Voltando à segunda visita, me senti mais à vontade para vê-lo, mais confiante e até feliz, estava com saudades. Pela primeira vez na minha vida eu senti saudades do meu pai. Pode soar frio isso, mas é uma longa história de 24 anos de tentativas de aproximação sempre fracassadas. E lá fui eu. Saí da redação e ainda tinha que ir cobrir mais uma dessas reuniões políticas voltadas para os LGBTs. Em época de campanha, todo mundo adora gay, respeita travesti e acha as lésbicas lutadoras. Saí da reunião e desci a Nove de Julho. Ele me ligou duas vezes me perguntando se eu já estava chegando, o quê achei meio estranho, percebi uma afobação fora do comum para o meu pai, um homem sempre muito rígido e que faz questão de nunca demonstrar fraqueza (me vejo nele daqui há alguns anos).

Cheguei ao hotel e dei um abraço nele e em minha madrasta, que para mim não fede nem cheira, não odeio nem amo, é apenas mais uma vítima da minha indiferença filosófica desenvolvida às muitas custas de leituras incessantes. Fomos jantar. Papo vai, papo vem. Comemos uma pizza, conversamos descontraidamente e, de repente, veio o golpe fatal. Tudo o quê eu havia imaginado sobre meu pai mudar sua postura com relação aos filhos dele (eu e minhas três irmãs) foi abaixo. Ele me pediu uma procuração de compra, venda e representação (não entendo bem disso e nesse caso prefiro continuar ignorante, nem quero ver no quê vai dar) para fazer negócios com terras no Tocantins, onde ele mora.

Não sei, realmente não sei. Sempre foi uma dúvida para mim as intenções do meu pai. Tenho medo que essa aproximação seja só para conseguir essa procuração e fazer sabe Deus o quê em meu nome. Mas, puta merda, ele é meu pai, sou o único filho homem (porque sim, eu sou muito homem) dele. Será que vem aí mais uma surpresa? Será que fui ingênuo? Não sei, repito. Vou dar a procuração e espero que tudo se resolva da melhor maneira possível.

Nos encontramos hoje de manhã de novo para ir ao Cartório, mas meus documentos não estavam regulares e a procuração ficou para outro dia. Pelo menos ganhei tempo para consultar minha irmã mais velha, que sabe o quê meu pai realmente quer. Pegamos o metrô e ele desceu na estação Trianon-Masp, antes de mim. Quando ele saiu do metrô, sem nem me dar um abraço ou dizer um simples "obrigado", meu coração apertou e eu não consegui não chorar. Ele é a única pessoa da minha família hoje em São Paulo e me trata como um estranho. Não consegui parar de chorar. Desci na estação Vila Madalena e não consegui ir direto para o trabalho. Fiquei uns 10 minutos chorando até conseguir me controlar. Eu nunca choro, por isso, quando começo, demoro para parar. Mas foi isso, agora estou aqui, me segurando cada vez que lembro disso, inclusive agora.

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